A mistura de etanol na gasolina vendida nos postos nunca foi tão alta no Brasil. A partir deste mês, o combustível de origem vegetal passa a corresponder a 32% de cada litro de gasolina, em uma medida que poderá durar até um ano. No entanto, o etanol que é misturado na gasolina é diferente daquele disponível nas bombas dos postos de combustíveis.
Embora a origem seja idêntica, o etanol adicionado à gasolina passa por um processo industrial extra para reduzir significativamente a quantidade de água em sua composição. Essa diferença química não apenas define o preço, mas protege componentes vitais dos motores, especialmente aqueles que não são flex.
A principal diferença entre os dois produtos está no teor de umidade. O etanol hidratado, aquele vendido nos postos, pode ter até 7,5% de água permitida por lei. É por causa desta fração de água, inclusive, que os carros chegam a soltar vapores pelo escape quando abastecidos com etanol.
Já o etanol anidro, misturado atualmente na proporção de 32% na gasolina comum e 25% na premium, tem sua concentração de umidade limitada a no máximo (ou até cerca de 0,7% dependendo da norma técnica regulatória específica), o que corresponde a uma graduação alcoólica mínima de 99,6 INPM.
Impacto no tanque e no motor
Essa desidratação é uma exigência técnica importante: a remoção da água impede a chamada separação de fases dentro do tanque de combustível, especialmente nos tanques de armazenamento dos postos.
Se o álcool comum fosse misturado à gasolina, a água decantaria junto com o etanol e criaria uma camada isolada no fundo. A gasolina, que tem densidade menor, ficaria na parte de cima. O combustível perderia sua homogeneidade.
O risco de esta separação acontecer no tanque de um carro é menor. Em carros flex, pode acontecer de um tanque com gasolina ser completado com etanol hidratado. Se os combustíveis se separarem após um tempo parado, bastará ele entrar em movimento para haver uma mistura. Caso as partes individuais chegassem ao motor, o sistema de injeção poderia acusar erro.
Um motor flex precisa, justamente, estar preparado para essa quantidade de água misturada ao etanol. O etanol absorve água facilmente, e o excesso de umidade aumenta a acidez e a condução de eletricidade, gerando oxidação em peças metálicas e falhas nos sistemas de injeção que não estão preparados.
Para o desenvolvimento do Haval H6 Flex 2027 a GWM teve que substituir a bomba de alta pressão do sistema de injeção direta do seu motor 1.5 turbo. A versão a gasolina usava uma bomba de 350 bar, que usa uma liga metálica sensível à água. A solução encontrada pela fabricante foi usar uma bomba de 200 bar, que não utiliza aquela liga metálica e não terá risco de oxidação.
É por isso que a engenharia das montadoras defende que o uso do etanol anidro melhoraria o rendimento térmico dos motores flex, reduzindo o consumo de combustível. Porém, a calibração atual dos propulsores brasileiros já é otimizada para lidar com o volume de água do álcool hidratado. Qualquer alteração nessa matriz exigiria repensar o custo de produção do combustível em nível nacional.

Ambos os tipos de álcool nascem da mesma forma nas usinas. Após a fermentação da cana-de-açúcar, a destilação gera o etanol hidratado, com teor alcoólico próximo a 96° GL. Como a destilação convencional não consegue retirar o restante da água, a produção do etanol anidro exige uma etapa adicional de desidratação. Esse processo encarece o produto final, o que explica por que as usinas consideram inviável vender o etanol anidro puro nos postos, apesar das solicitações frequentes da indústria automotiva.
Função do etanol anidro na gasolina
O Brasil começou a misturar álcool à gasolina em 1938, para reduzir a dependência de importações. Hoje, a justificativa técnica pesa tanto quanto a econômica e ambiental. O etanol anidro atua como um antidetonante natural e eleva o índice de octanagem da gasolina. Ele substituiu o chumbo tetraetila, um aditivo altamente tóxico banido globalmente. Ao usar o etanol, o Brasil reduz a emissão de gases do efeito estufa e melhora a eficiência da combustão.
Essa composição peculiar do combustível nacional, no entanto, demanda esforços de engenharia dos fabricantes a nível global. Antes de importarem seus carros, as montadoras precisam avaliar como seus motores lidam com nossos combustíveis e eventualmente fazer recalibrações para suportar nossa gasolina com etanol misturado.
Em países estrangeiros, é comum encontrar a mistura E85 (85% de álcool), onde a pequena parcela de gasolina ajuda na vaporização em partidas a frio, função que no Brasil exige bicos injetores com pré-aquecimento em motores convencionais – a injeção direta dispensa a necessidade disto.

O etanol anidro viabiliza a gasolina comum mais “limpa” e protege o motor, enquanto o etanol hidratado segue como a alternativa viável na bomba. O desafio sempre é garantir que os combustíveis estejam dentro das especificações definidas por lei. Além de fraudes de adição de água ao etanol, recentemente foi identificada a adição clandestina de metanol aos combustíveis, um solvente corrosivo capaz de derreter componentes de injeção e invalidar qualquer calibração original de fábrica.


